quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pra começar, eu odeio calor. ODEIO.CALOR.
Mesmo se estiver numa praia paradisíaca. Odeio transpirar, sim mesmo durante o sexo. Mesmo se for sexo enlouquecedoramente delicioso, pra mim seria infinitamente mais delicioso se não tivesse suor. Transpirar é indigno. E sabe, eu passei dos 30, eu preciso de cremes e maquiagens pra ficar com carinha de 24. Camadas e mais camadas. Calor derrete toda a minha jovialidade. Calor é tão filho da puta que chega ao ponto de humilhação de te fazer ficar com bigodinho de suor na boate.
21 de Dezembro, começa oficialmente o calor.
Ok, temos que lidar, faz parte da vida e de viver neste enorme parque temático chamado Brasil. Calor liga as turbinas e chega-chegando, deixando o pessoal das firmas que trabalham montados de mini executivos e excutivas, nivel gerência pra baixo, desfilando por aí no máximo possível da elegância fibra-poliesteriana. Tenho 2 exemplos pra vocês:
1. Terninho rosa bebê de tergal;
2. Terno, gravata, camisa de manga curta amarelo-bebê.
Aí acontece outra coisa que me irrita profundamente em Dezembro: a árvore de Natal do Parque do Ibirapuera. Certo que na sua cidade também tem uma, mas aqui a fauna local acha que é programa parar o carro pra tirar foto em frente da porra da puta da árvore. E o trânsito, que já não é dos melhores, fica um caos. Tenho inclusive uma tese de que se quiserem mesmo povoar o Acre é só montar a árvore de Natal do Ibirapuera por lá que o povo vai atrás.
“Ah, mas essas tradições são bacanas”. Naonde? Explica?
Noventa por cento das pessoas, arredondando pra baixo, passam o ano sendo puramente egoístas e escrotos e agora vem com espírito cristão e flores pra Iemanjá. Pegar na enxada o resto do ano pra fazer a vida dar certo, e ser menos egoísta ninguém quer. Mas comprar vestido vermelho de alcinha, e jogar lixo no mar de calcinha vermelha todo mundo quer.
Entendo. E nem cheguei na parte dos comes e bebes. Mas vou chegar. Cheguei.
Fato 1: eu bebo. Sempre que posso, sempre que tenho dinheiro, sempre que tenho com quem. Eu saio pra beber. E saio pra jantar, e pra ir na Livraria Cultura e ao cinema. Esse é meu clube, essa é minha vida. Com algum método e planejamento, consigo evitar aglomerações e desconforto. Só descobrir os hábitos da manada e aproveitar as lacunas. Vida ermitã segue feliz e prazerosa.
Mas não no mês de dezembro. Porque? Festas de firma. Amigos secretos. Encerramentos de ano. Confraternização do pessoal do trabalho. Despedidas.
Meu cu. Essa gente que entope os lugares não sabe nem se portar num ambiente que vende bebida alcoólica. Eu vejo vocês, funcionários de cartórios, contabilidades, bancos, seguradoras, etc. Eu vejo vocês dançando com a gravata na testa, e os seios pulando pra fora da camisa social com elastano que é pelo menos 1 tamanho menor que o seu. Aquele botão da dignidade que evita que o seios pulem se segurando como pode. E vejo vocês pedindo pro DJ tocar Papanamericano.
E dou risada. Me irrito mas dou risada. Mas e vocês? Que vão continuar trabalhando juntos, diariamente. Então pensem na possibilidade de sair e perder o melhor da festa, antes que o melhor da festa seja o seu pior.
Dezembro é como se fosse uma micareta, uma histeria, um amor se espalhando mais rápido que DST. Um sentimentalismo que invariavelmente vai fazer o telefone tocar. E vai ser algum parente, confirmando que o Natal vai ser naquele núcleo familiar. Já não se sabe se por prazer, por tradição ou porque ninguém mais se ofereceu pra fazer a função.
(Menos vocês, meus parentes, amo todo mundo.)
E a partir deste dia tudo vira uma corrida contra o tempo: listar e tirar da lista quem vai ser agraciado com presente. Listar e riscar da lista os assuntos que devem ser evitados. Pensar no que vestir, pensar no que dizer, pensar nos assuntos que você ainda tem em comum com aquela gente. Um exercício cansativo e que no fim das contas você só faz por obrigação, ou pra saber como anda aquele núcleo da família que você não suporta.
Tudo isso talvez valesse a pena, se a comida fosse um manjar dos Deuses, mas não é. As pessoas não sabem mais nem fazer arroz branco soltinho e bem temperado, vão saber assar peru sem ficar seco? E aí acrescentam o que como acompanhamento? Farofa. Minha tese é que na verdade isso foi pensado pra formar um massa de concreto dentro da boca e ninguém conseguir falar muita coisa.
Aí têm as famílias que te fazem comer antes da meia- noite, e aí as crianças fica histéricas de tanto panetone e pavê que comeram, correm pela sala informando quanto tempo falta pra meia noite, de cinco em cinco minutos. Têm as famílias que te fazem morrer de fome até a meia noite, e aí você come depois da distribuição dos presentes, tropeçando em papel amassado pra ir se servir entre bazucas de plástico e bonecas que falam.
“Pelo menos dá pra encher a cara de champanhe”. Defina “champanhe”.
Enche, enche a cara do espumante, mas enche até ter vontade de colocar a a Simone no YouTube cantando “Então é Natal”. E no dia seguinte me conta de não ‘algo próximo da morte ter que acordar com despertador e ressaca, pra começar tudo de novo, agora versão diurna.
Aí tem o reveillon, que se você for esperto e tiver dinheiro pega um avião e vai pra longe, bem longe. Ou vai pro interior encontrar família e fazer cosplay do Natal, ou vai pra praia pegar trânsito e ter que conviver com a humanidade no seu pior.
Ou fica em casa, bem quietinho, numa dessas metrópoles que ficam vazias e deliciosas.
Rancorosa, anti social, recalcada?
Experimenta ser honesto com a parentada durante toda a noite de Natal e toda a noite de Reveillon. Essa coisa de espírito de final de ano foi inventada pras pessoas entrarem num transe coletivo, e se esquecerem o que realmente pensam sobre os outros. Experimenta no abraço de Reveillon dizer: “espero que seu marido pare de botar chifres em você”, “espero que seu pau volte a funcionar, espero que você crie vergonha na cara e arrume um emprego, espero que você finalmente emagreça”, “espero que seu filho apareça mais bem educado”, “tomara que sua filha adolescente pirigueti não engravide”, “espero que você pare de fumar tanta maconha”, “que neste ano que vem você me chupe mais e me aborreça menos”, “que você entre numa academia e dê jeito nessa bunda caída”, “que sua barriga de chope não aumente mais”.
Experimentem honestidade, e depois me contem como foi.
Aposto que vai ser horrível, mas aposto também que ano que vem o seu telefone vai tocar de novo com um convite. É o espírito de Natal, forçando a gente a se amar, pra fingir que o mundo faz sentido e que tende a melhorar.
Mas é mentira. Vai continuar tudo igual.



