sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Rafael queria que eu escrevesse sobre quiche, mas desobedeci. O post quiche virá, não reclamem. Aconteceu uma coisa. Quarta eu fui almoçar feijoada num restaurante tradicional de feijoada aqui em São Paulo. Cheiro delícia, caldinho delícia, caipirinha (cachaça+gelo+limão+açúcar) delícia. Aí chega a hora de comer a aclamada feijoada, estrela do dia.
“Feijoada pra 6″. Veio uma comanda com lista de coisas e um lápis pra assinalar quais as carnes que a mesa queria que fossem incluídas.
Repetirei, pro caso de alguém não ter compreendido: a mesa recebeu uma comanda que trazia uma lista de componentes de feijoada, um lápis 2B e ordem de chegar a um consenso a respeito das carnes que as 6 pessoas sentadas gostariam de comer na feijoada. Note que viria 1 feijoada pra 6 pessoas, numa mesma cumbuca. 
Vamos passar por cima da falha de raciocínio que representa você deixar a pessoa escolher quais carnes quer, mas no fim misturar todos os pedidos e particularidades, servindo tudo embaralhado. O criador do método é burro, percebemos isto.
Aí tem a que não come nada além de linguiça, o que prefere paio, o povo da carne seca, o povo só do caldo, o povo corajoso, os “tanto faz por mim” e eu, a bully. Porque essa é das situações que clamam por um bullying de leve. Sugerida a solução de cada um assinalar o que gosta, e a gente depois separar na hora de servir, começou a rodar o papel e o lápis. Passado pelos outros 5 chegou na minha mão com: linguiça e carne seca assinalados. Que tipo de feijoada é essa? No meu mundo feijão preto mais 2 tipos de carne não constitui feijoada. Quis nem saber, saí assinalando o que queria, e o que não queria.
Sabe gente, a pescaria faz parte do rito feijoadístico. Feijoada é comida pra gente brava, forte, filha do norte. Não é pra fracos, frescos, frouxos. Vai coar suco de laranja, ou implicar com a pele do tomate no molho de macarrão. Vai criar caso pra mamãe, pra vovó ou pra madrinha. Coisa rica da vó.
Não vai estragar a feijoada da quarta feira. Não faz os amiguinhos saírem de casa e irem te encontrar pra na hora de comer, pedir feijão com linguiça. Não deixa a couve de lado, não faz descaso com a bisteca, não pula a banana à milanesa porque é fritura. Taí o tofu, lindo e saudável, adequado pra sua dieta.
Agora o lado positivo, você que adora personalizar seus pratos, e tem nojinho: pode ir ao Spoleto do shopping mais próximo e comer uma saladinha com 3 tipos de tomate, 2 tipos de alface e 2 tipos de queijo.
Feijoada vegetariana: vai mal a humanidade. Nada contra vegetarianos (mentira, eu julgo um pouco, os fanáticos principalmente), nada contra a ecobag, nada contra energia eólica, mas feijoada não é feita de feijão e inhame. Me perdoe. Tá chamando de feijoada um cozidão de legumes. Seria como chamar Tang de uva de vinho e fazer pose de enólogo.
Rabo, orelha, focinho e pé de porco. E tem que ter tudo com osso, pra soltar gosminha e dar liga.
Deixa a gostosa da feijoada pro pessoal que quer a sensação de estômago pesado, que quer comer um troço incrível. E não quer que seja bonita, ou magra ou politicamente correta. Aliás, se beleza fosse critério, ninguém nunca teria comido feijoada. Feijoada não é Sandy, feijoada é rock n roll.
O recadinho da semana, pra levar consigo amanhã no sábado de feijoada: podem julgar gente que torce o nariz pra mistureba. E servir um belo pão com vinagrete e farinha pra eles, não merecem nada além.







